Resenha Crítica: O Crocodilo (1864) - Um conto de Fiódor Dostoiévski

Resenha Crítica: O Crocodilo (1864) - Um conto de Fiódor Dostoiévski

O Crocodilo - Fiódor Dostoiévski

 

Resenha, de Giuliano de Méroe

 

O Crocodilo é um escrito potencialmente marcado pela atividade jornalística de Dostoiévski, quando trabalhava com o irmão Mikhail, que fundou a revista Epokha (A Época), na cidade de São Petersburgo em 1864.  A Revista assumia uma posição ideológica muito cara ao escritor russo, o pótchvienitchestvo[1]·, posição independente que marca o embate polêmico do escritor com os intelectuais chamados de progressistas de sua época.

O conto parodia o ideal econômico irrefletido da burguesia: modernizar a Rússia à maneira dos costumes e valores europeus, apoiando-se em medidas econômicas que visam à entrada de capital externo, e arrendamento das terras soviéticas pelas firmas estrangeiras. O esforço não passa de uma tentativa de europeização ao modo de vida dos russos.

A estória se desenvolve em torno de três personagens: Ivan Matviéitch, um funcionário público retratado por Dostoiévski como o típico burguês russo; Ielena Ivânovna, esposa de Ivan Matviéitch, e Siémion Siemiônitch (amigo do casal e narrador do romance).

O conto inicia-se numa manhã em São Petersburgo; Ivan Matviéitc tira licença e pretende viajar pela Europa, porém antes de viajar, o casal decide visitar uma exposição, na Passagem[2], e sua esposa pede para ver o crocodilo que estava sendo exibido por um alemão.

Na entrada, assim que pagaram um quarto de rublo ao dono do estabelecimento, se depararam com o crocodilo, imóvel, em uma tina com pouca água.  Um pouco decepcionados com a inércia do crocodilo, Matviéitch, no papel de marido que satisfaz os caprichos da esposa, passa a provocar com um pedaço de pau o animal que, em reação, o engole. Disso segue uma sequência bizarra; enquanto a Ielena grita desesperadamente pelo marido, o alemão igualmente se descontrola e solta berros quase infantis ao seu crocodilo:

 

“Oh, meu crocodilo, O Mein Allerliebster Karlchen! Mutter, Mutter, Mutter!                             

“Somos órfãos privados de pão (…)”.

 

Matviétich, porém, sobrevive dentro do crocodilo, e ao perceber a relutância do alemão, em abrir a barriga do animal para tirá-lo de dentro, ele se sente ainda mais confiante, pois em um lugar confortável pode criar novas teorias e horizontes novos para toda humanidade.  O seguinte trecho do diálogo ilustra bem essa ideia e marca suas diferenças com seu amigo Siémion Siemiônitch:

 

- Eles têm razão – observou tranquilamente Ivan Matviétich. – O princípio econômico em primeiro lugar.

 

O que há de perturbador nesta estória de Dostoiévski é que todos os personagens, o alemão, sua mãe,  IeIena, com exceção de Siémion, não pensam que um ser humano  foi engolido por um crocodilo.  A avaliação deles é totalmente imbuída do princípio econômico, uma racionalidade segundo a qual um crocodilo ao ser exibido fora de seu país gera capital para seu dono, um estrangeiro. O risco é que o crocodilo pode morrer por ter engolido um ser humano, e assim frustrar o futuro progresso russo, com o bloqueio do capital.

Dostoiévski, com esta sátira, pretendeu criticar a falta de visão humanista e, segundo assinala Boris Schnaiderman, esse conto fala de sua aversão a qualquer mudança do estado social vigente, pelo uso da força.

Quando Siémion visita um conhecido de Ivan, Timofiéi Siemiônitch, para obter conselhos sobre como proceder, ele age como se o ocorrido a Ivan fosse merecido, pois lhe era insuportável sua maneira de pensar.

“(...) Serei assunto obrigatório tanto aqui como lá. Há muito ansiava por uma oportunidade em que todos falassem de mim, mas, tolhido de minha pouca importância e pelo posto subalterno, não o conseguia. Agora, todavia, tudo isso foi alcançado pela simples tragada de um crocodilo. Cada palavra minha será ouvida, cada uma das minhas afirmações será pensada, transmitida, impressa. E eu hei de mostrar quem sou! (...)”.

“(...) apresentarei com a minha pessoa um exemplo de grandeza de espírito conformado perante o destino! Serei, por assim dizer, uma cátedra da qual hei de instruir a humanidade (...)”.

“(...) Transformarei minha mulher numa brilhante dama literária (...);” (...) poetas, filósofos, mineralogistas em viagem, estadistas, depois de uma palestra magistral comigo, frequentarão à noite o seu salão (...)”.

Na passagem abaixo, no diálogo entre Siémion e Siemiônitch, Dostoiévski critica a tônica intelectual dos progressistas:

“Não, é assim mesmo. Assim mesmo, entende? Isto acontece em virtude de um excesso de instrução, pode crer em mim. Pois as pessoas demasiadamente instruídas procuram penetrar em todos os lugares e, sobretudo, naqueles onde não são chamadas. (...)”.

Sobre Ielena, a impressão que podemos captar da narração de Siémion é que ela é uma mulher bonita, um pouco fútil, e que enquanto seu marido está no interior do crocodilo, se questiona sobre o divórcio, agora que seu marido não mais receberá seu salário.

O conto se interrompe quando Siémion está indo em direção da Passagem para ler os artigos dos jornais que falam sobre o ocorrido com seu companheiro Ivan, deixando o leitor com a curiosidade de saber qual teria sido a reação de Ivan quando visse que seus planos não saíram como planejado.

Existem outras passagens deste conto que, como a do diálogo entre Timofiéi Siemiônitch e Siemiônitch, que realçam bem esse tipo de capitalismo selvagem, desumano e egoísta de ambas as partes, tanto da parte do engolido quanto da parte de seus expectadores.

“(...) Nós mesmos nos afanamos para atrais os capitais estrangeiros à nossa pátria, mas veja bem: mal foi atraído para o nosso meio, o capital do homem do crocodilo duplicou-se por intermédio de Ivan Maviéitch, e nós, em lugar de proteger o proprietário estrangeiro, queremos abrir a barriga do próprio capital de base. Ora, há coerência nisto? A meu ver, Ivan Maviéitch, como um verdadeiro filho de sua pátria, deve ainda alegrar-se e orgulhar-se com o fato de ter duplicado, ou talvez até triplicado, com a sua pessoa, o valor de um crocodilo estrangeiro. Isto é necessário para atrair os capitais (...)”.

Como lembra Schnaiderman, Dostoiévski, na ocasião, estava com sérios embates com os intelectuais do governo que o acusavam de conspiração, chegando até ser amarrado ao poste de execução, antes que fosse anunciada a comutação de sua pena de morte.

Consideramos este conto de Dostoiévski como crítico, satírico e irônico, em relação a essa maneira de pensar o capitalismo na Rússia, então czarista; e também essa atitude desumana, gerada pelo chamado fundamento econômico dos progressistas.  

 

 

 

 

 

 

 

 


[1] Corrente sociocultural independente. Este nome deriva da palavra potchva; significa solo e também pode ter o sentido de fundação e apoio. Os principais representantes dessa tendência foram Fiódor Dostoiévski, Nikolai Strákhov e Apolon Grigóriev. Os pótchvieniki acreditavam que as questões sociopolíticas do momento seriam secundárias em relação à grande tarefa de promover uma nova síntese cultural da Rússia (FRANK, 2002). Esta era uma posição contrária à intelectualidade radical que acreditava que todas as questões eram secundárias em relação à melhoria das condições de vida dos camponeses.

[2] Galeria de lojas em São Petersburgo, existente até hoje, onde há salas de conferências, concertos e exposições.