Os PCNEM: Concepções de Literatura e Ensino

Os PCNEM: Concepções de Literatura e Ensino

OS PCNEM: CONCEPÇÕES DE LITERATURA E ENSINO

 

 

Por Luciana Carvalho dos Reis1

RESUMO

Este trabalho faz um breve estudo acerca das concepções de Literatura e ensino, levando em consideração os PCNEM e as contribuições Antônio Cândido.

Palavras-chave: PCNEM. Literatura. Ensino.

 

ABSTRACT

This work is a brief study about the conceptions of literature and education, taking into account the PCNEM and contributions Antônio Cândido.

Keywords: PCNEM. Literature. Teaching.

 

 

Não há como evitar que a literatura, qualquer literatura, não só a literatura infantil e juvenil, ao se tornar “saber escolar”, se escolarize, e não se pode atribuir, em tese, [...] conotação pejorativa a essa escolarização, inevitável e necessária; não se pode criticá-la ou negá-la, por que isso significaria negar a própria escola[...]. O que se pode criticar, o que se deve negar não é a escolarização da literatura, que se traduz em inadequada, a errônea, a imprópria escolarização da literatura, que se traduz em sua deturpação, falsificação, distorção, como resultado de uma pedagogização ou uma didatização mal compreendida que, ao transformar o literário em escolar, desfigura-o, desvirtua-o, falseia-o (SOARES, 2011, p. 78).

 

O estudo buscou fazer um recorte para discutir a Literatura no âmbito do Ensino Médio, pois é nessa etapa que a responsabilidade de ensinar Literatura torna-se premente pela proximidade do vestibular e do ENEM (Exame Nacional de Ensino Médio). Esse é outro equívoco da escola, porque, no Ensino Médio, esse aluno já deveria ser um aluno-leitor proficiente, gostando ou não das narrativas literárias que lhe são apresentadas.

Foi nesse sentido que o Ministério da Educação e Cultura publicou alguns documentos para nortear o ensino de Língua e Literatura em nível nacional, a fim de parametrizar e nivelar a prática docente nas escolas brasileiras. Têm-se, então: os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio – PCNEM Brasil (2000); as Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN, Brasil (2000) e as Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio – OCNEM, Brasil (2006) que destacam o caráter comunicativo no tocante à língua é humanizador em relação à Literatura.

Isso foi necessário, porque tanto as pesquisas quanto as avaliações externas a exemplo do Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes – PISA – comprovam que os estudantes brasileiros apresentam dificuldades quanto à proficiência nas leituras, inclusive, a literária.

As primeiras reflexões mais sistemáticas sobre o que ainda hoje se chama de Literatura surgiram na Grécia Antiga. Foi no mundo clássico dos gregos que começaram as primeiras divergências e discussões sobre o que seria a Literatura (LAJOLO,2000, p. 54).

(MAINGUENAU, 2009, p.197) afirma que uma língua é um conjunto de matéria que está à disposição de todos e a Literatura é um ornamento que se soma a língua que naturalmente volta-se a tarefas de comunicação elementares. Não sendo apenas ornamento, a Literatura participa da própria constituição da língua, contribuindo para lhe conceder qualidade de língua, estatuto de língua.

Muitas tem sido as tentativas de se definir Literatura. É possível, por exemplo defini-la como a escrita imaginativa, sentido de ficção- escrita esta que não é literalmente, verídicas. Mas se refletimos, ainda que brevemente sobre aquilo que comumente se considera literatura. Tal definição não procede (EAGLETON, 2006, p.1).

 

Esse autor nos diz que talvez seja necessário uma abordagem diferente, para que a Literatura seja definível, não pelo fato de ser ficcional ou imaginativa, mas porque emprega a linguagem de forma peculiar. Para esse teórico, “a literatura é a escrita que, nas palavras [...] transforma e intensifica a linguagem comum” (EAGLETON, 2006, p.2).

O ensino de Literatura está integrado na área de leitura e dos estudos dos gêneros discursivos, por isso dialoga com resenha, sinopses, sínteses, reportagens, ensaios entre outros que falam sobre a Literatura e que são imprescindíveis para esse jovem leitor do Ensino Médio.

Compreender alguns aspectos que são teóricos em relação à forma de o autor dizer as coisas do jeito que diz, pois somente ele sabe o efeito de sentido que deseja provocar nos seus leitores.

Além disso, muitas vezes, diante de uma narrativa ficcional literária o leitor precisa recorrer a outros textos para que seja possível compreender alguns aspectos linguísticos, históricos, políticos e culturais que são inferidos e ou citados. Por exemplo, Machado de Assis, logo no início do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, publicado em 1881, que trata das experiências de um jovem abastado da elite brasileira do século XIX, o Brás Cubas. O narrador em primeira pessoa inicia a narrativa pela sua morte, descreve a cena do seu enterro, dos delírios antes de morrer, até retornar a sua infância:

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco (ASSIS, MACHADO, 2015, p.18).

 

Observou-se que nesse tipo de texto, muito presente no Ensino Médio, o leitor precisa conhecer o repertório cultural e linguístico para compreendê-lo, pois as palavras ‘campa’ e ‘intróito’ e a referência a ‘Moisés’ e ‘Pentateuco’ não são explicadas no texto em si e são saberes sofisticados nem sempre acessível a todos os brasileiros.

É preciso, pois, que sejam criadas as condições de produção de leitura para esse texto, porque ao sair dele, o leitor levará consigo saberes linguísticos, culturais e discursivos, facilitando perceber, então, a ironia, o pessimismo e humor machadiano, aspectos tão pontuados nos livros de livros didáticos, mas pouco compreendido pelos alunos- leitores. Na prática pedagógica, nem sempre se faz um estudo pautado da narrativa em si, para a partir dela os alunos-leitores realizarem as inferências e perceberem a intertextualidade e as marcas que filiam esse texto ao Realismo.

Os PCNs procuraram explicitar os conceitos alusivos à leitura partir da compreensão de dois eixos que sustentam os Parâmetros: representação e comunicação, investigação e compreensão. Esses parâmetros tomam a Literatura em seu stricto sensu como arte que se constrói palavras e na defesa das especificidades inerentes à Literatura. Enfatizam a importância de sua presença no currículo do Ensino Médio, discutem sobre sua a necessidade, enfocando a arte, a Literatura assim como outras formas de expressão artística como um saber fundamental ao homem, não sendo apenas privilégios de uma minoria:

Sempre gozou de status privilegiado ante as outras, dada à tradição letrada de uma elite que comandava os destinos da nação. A literatura era tão privilegiada que chegou mesmo a ser tomada como sinal distintivo de cultura, logo de classe social (BRASIL,2006, p.55).

 

As competências e habilidades propostas pelos PCNs, Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (PCNEM) e pelas Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio permitem inferir que o ensino de Língua Portuguesa e de Literatura busque desenvolver no aluno-leitor seu potencial crítico, sua percepção das múltiplas possibilidades de expressão Linguística, sua capacitação como leitor efetivo dos mais diversos textos representativos de nossa cultura com vistas a ampliar ou construir o letramento Soares (2011) desses alunos-leitores:

Para além da memorização mecânica de regras gramaticais ou das características de determinado movimento literário, o aluno deve ter meios para ampliar e articular conhecimentos e competências que possam ser mobilizadas nas inúmeras situações de uso da língua com que se depara na família, entre amigos, na escola, no mundo do trabalho (BRASIL, 2000, p.55).

 

A formação do aluno leitor de Literatura é discutida nesses documentos de forma bastante ampla, apontando as necessidades de letramento literário que leve aos jovens a não lerem apenas as obras literárias, mas que possam ir além, conhecendo textos que falem da Literatura. Tais documentos orientam os professores, apontando caminhos que devem trilhar para que alcancem seus objetivos, para cumprir com esses objetivos em relação à formação de leitores na escola.

Entretanto, segundo as orientações dadas por esses documentos oficiais publicados pelo Ministério da Educação e Cultura, não se deve sobrecarregar o aluno-leitor com apenas informações sobre épocas, estilos, características de escolas literárias como até hoje tem ocorrido, apesar de os PCNs, principalmente o (PCN, 2002, p.55), alertarem para o caráter secundário de tais conteúdos para além da memorização mecânica de regras gramaticais ou das características de determinado movimento literário.

O princípio teórico-metodológico assegura ao aluno o acesso aos meios para ampliar e articular conhecimentos, ou seja, tornar-se leitor proficiente e para isso ele precisa ler os textos de forma mais significativa e com mais intensidade e frequência, quer dizer precisa ler esses títulos e ter uma garantia de qualidades nessas leituras.

Os PCNS insistem que a formação do leitor e escritor só será possível na medida em que o próprio professor se apresenta para o aluno como alguém que vive a experiência da leitura e da escrita. O professor, além de ser aquele que ensina conteúdo, é alguém que transmite o valor que a língua tem demonstrado para si. Se o professor tem relação prazerosa com a leitura e a escrita certamente poderá funcionar com medidas para seus alunos (ROJO, 2000, p.66).

 

Rojo (2011), dialogando com esses documentos referentes à Língua Portuguesa, insiste sobre a necessidade de a escola formar leitores e escritores, alertando para que essa procure ultrapassar os limites estreitos de suas práticas exclusivamente escolares ao conhecer e compartilhar a diversidade textual vivenciada por seus alunos-leitores.

Alerta a estudiosa que isto só será possível na medida em que o próprio professor se apresente para o aluno como alguém que vive a experiência da leitura e escrita e isso será percebido pelos alunos à proporção que ele comenta, avalia, cita passagens de textos, recita poemas, enfim se mostra para o aluno-leitor com um leitor modelo e maduro, como confirma em seus estudos o semiólogo, linguista e diretor da Escola Superior de Ciências Humanas na Universidade de Bolonha, Umberto Eco (2015).

Soares (2011) traz, em seus estudos, reflexões e esclarecimentos de como tem sido desenvolvidas as relações entre Literatura e ensino na esfera escolar. Pontua essa estudiosa que há uma descaracterização da Literatura nesse espaço e, por isso e alguns teóricos têm questionado a sua permanência como disciplina no currículo escolar. Essa autora suscita discussões e reflexões sobre o processo de escolarização da Literatura infantil e juvenil e seu foco principal é a formação de leitores proficientes e letrados, quer dizer, estudantes que fazem da leitura uma prática social e cultural, independente da exigência escolar.

Afirma essa pesquisadora que não é a escolarização da Literatura que tem que ser criticada, mas a inadequada e equivocada prática docente que se resume em uma pedagogização ou uma didatização imediatista e mal interpretada no que concerne ao trabalho com o texto literário e que o apresenta sempre como pretexto para se ensinar outras coisas, menos à especificidade das narrativas literárias em si mesmas.

Portanto, preencher fichas, ler apenas para dramatizar, registrar cenas por meio de desenhos e, ainda, fazer provas avaliativas sem considerar o trato com a palavra em estado de arte com suas inesgotáveis significações ¾ matéria prima da Literatura ¾ têm sido as atividades simplistas, superficiais e comuns que acompanham o trabalho com a Literatura na escola. Perde-se a arte da palavra, a gratuidade e fruição do texto, o estranhamento e as sinestesias construídas pelo verbal em nome de atividades para ensinar valores morais, questões sociais e linguísticas.

A Literatura tem um caráter humanizado, social e cultural que vem materializado pela linguagem, mas ler somente para identificar essas questões é reduzir toda a complexidade e estética que as narrativas literárias trazem consigo, seja por uma simples quadrinha poética, uma parlenda, um poema, conto, uma fábula ou um romance. É nesse sentido que existem críticas em relação à escolarização da Literatura, porque deixa de ser arte para atender ao imediatismo das atividades escolares com seus diferentes pretextos pedagógicos.

O professor da Universidade Federal de Minas Gerais, Rildo Cosson (2011) diz que se o aluno sai da escola não gostando de leituras da ordem da ficção literária, a adoção dessa prática cultural em sua vida acaba tornando-se incerta ou, por vezes, inexistente. Geralmente na escola se lê pouco e com fins didáticos: lê-se para apresentar um seminário, fazer a análise de um romance ou poema, relacionar os conhecimentos presentes nos textos de forma transdisciplinar, preparar-se para concursos entre outras finalidades, talvez, por isso, a leitura fora da escola esteja fortemente condicionada pela maneira como essa instituição tem organizado o seu fazer docente em relação a esse objeto.

A leitura, inclusive da ficção literária, faz-se necessária na vida das pessoas, porque, diante destas, há sensibilidade, recusas de atitudes e ideologias ali apresentadas, e envolvimento de emoções. Deixar a narrativa de lado assim que se deseja, enfim, desenvolve-se no sujeito certa autonomia, mas não há uma cobrança tão objetiva quanto aquela que é feita na escola. Ressalva-se que nem sempre a leitura literária feita nos modelos escolares tem desenvolvido habilidades e mesmo o gosto por esse tipo de leitura em seus leitores, mesmo sabendo que todas as pessoas podem ser leitoras em potencial.

Precisa-se priorizar esse potencial do aluno ¾ leitor, oferecer a ele diversos textos que estejam próximos ou distantes de sua realidade histórica e social no intuito de oferecer caminhos para construir sua identidade quanto leitor, colaborando para que possa se tornar um sujeito que age sobre o mundo para transformá-lo a partir da ação sobre si mesmo para firmar sua liberdade fugindo da alienação.

De acordo com a professora da Universidade do Vale do Sapucaí,
Eni de Lourdes Puccinelli Orlandi (2003, p.58), “Não é só quem escreve que significa, quem lê também produz sentidos. E o faz, não como algo que se dá abstratamente, mas em condições determinadas, cujas especificidades estão em serem sócio- históricas”.

A Literatura possibilita isso, ou seja, significar a partir da leitura, pois é uma forma privilegiada de linguagens, porque, entre outros aspectos, pode favorecer o desenvolvimento da educação e sensibilidade estética como sugere Antônio Cândido, cujas ideias estão bem presentes nesses documentos oficiais quando se trata de Literatura.

Entendo aqui por humanização o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante (CÂNDIDO, 2009, p. 249).

 

As funções da Literatura estão ligadas à complexidade da sua natureza, que explica inclusive o papel contraditório e humanizador que o texto literário traz consigo, porque permite, entre outras coisas, a identificação emocional entre a pessoa que lê e o texto, podendo apresentar dentro ou fora da escola, especulações feitas pelo leitor consigo mesmo ou como outras pessoas acerca de questões apresentadas e refletidas em determinadas narrativas.

Podem-se distinguir pelo menos três faces, para o papel contraditório, mas humanizador da literatura:

(1) ela é uma construção de objetos autônomos como estrutura e significado (2) ela é uma forma de expressão, isto é, manifesta emoções e a visão de mundo dos indivíduos e dos grupos; (3) ela é uma forma de conhecimento, inclusive como incorporação difusa e inconsciente (CÂNDIDO, 2009, p.176).

 

Nesse sentido, a Literatura tem uma atuação sobre nós por transmitir conhecimentos, resultando em aprendizados, mas vale ressaltar que ela não desempenha, apenas, esse papel quando se trata de produções literárias, pois o seu efeito ocorre devido à atuação que articula a relação da Literatura também com os direitos humanos por dois ângulos, Cândido (2009).

Para Cândido (2009), a Literatura corresponde à necessidade cultural e universal, mas pode causar a mutilação da personalidade, porque a literatura dá forma aos sentimentos e a nossa visão de mundo, nos humaniza, nos organiza nos libertando do caos. Ao negar a sua fruição está se mutilando a humanidade. Em segundo lugar, para esse autor, a Literatura é um instrumento que desperta a consciência fazendo com que lutemos pelos nossos direitos; é tudo o que pode ser chamado de criação poética ficcional e dramática, alcançando todos os níveis sociais e culturais, desde o que chamamos de folclore e a forma mais complexa de produção escrita das grandes civilizações.

Reflete, ainda, que a Literatura apresenta-se como manifestação universal de todos os homens. “Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação” (CANDIDO, 2009, p.174). Reitera Cosson (2011):

A Literatura nos diz o que somos e nos incentiva a desejar e a expressar o mundo por nós mesmos. E isso se dá porque a literatura é uma experiência a ser realizada é mais que um conhecimento a ser reelaborada, ela é a incorporação do outros em mim sem renúncia da minha própria identidade (COSSON, 2011, p.17).

 

Na perspectiva de Cosson, tais narrativas incentivam a ter desejos e expressar o mundo por nós mesmos. Isso acontece porque elas refletem experiências que realizamos de uma forma mais reelaborada, propiciando a incorporação dos outros em nós sem que renunciemos a nossa própria identidade.

Rojo (2011) afirma que a Literatura leva ao extremo a ambiguidade da linguagem: ao mesmo tempo em que cala o homem as coisas, diminuindo o espaço entre o nome e o objeto nomeado. Para ela, a ficção literária é a porta de um mundo autônomo que ao nascer como ela não se desfaz na última página do livro, no último verso do poema, na última fala da representação, mas permanece ricocheteando no leitor, incorporando como vivência, erigindo-se em marco do percurso de literatura de cada um.

Daí o engano de quem acha que o caráter humanizante e formador da literatura vem da natureza de quantidade de informações que ela propicia ao leitor. Literatura não transmite nada. Cria dá existência plena ao que, sem ela, ficaria no caos do inominado e consequentemente do não existente para cada um. E, o que é fundamental, ao mesmo tempo em que cria aponta para o provisório da criação o mundo da Literatura, como o da linguagem, é o mundo do possível (LAJOLO, 2000, p.43).

 

Para Riter (2009), a escola precisa mostrar aos alunos a importância da leitura literária e o conhecimento dos aspectos que a envolvem, e, assim, apresentar narrativas interessantes e significativas, polêmicas, misteriosas, românticas, épicas, cuja leitura, se não realizada na escola, sob o olhar atento e orientador de um professor-leitor, muitas vezes jamais ocorrerá.

Para Aguiar e Silva (2007), a simples denominação de Literatura implica a relação com as letras, com a arte de expressão por meio da linguagem verbal e é também desse lugar que as reflexões sobre Literatura e ensino devem se pautar. Quer dizer, é preciso ir até as narrativas, ter intimidade com elas, com as palavras que constituem os textos que estão no seu escopo e, também, aos seus personagens, abstendo-se de uma prática ancorada em fragmentos e excertos dos romances, contos e poemas que tem a simplista função de comprovar as características dos períodos literários.

Caso o professor resolva fugir a esse programa restrito e ensinar leitura literária, ele tende a recusar os textos canônicos por considerá-los pouco atraente, seja pelo hermetismo do vocabulário e da sintaxe, seja pela temática antiga que pouco interessaria aos alunos de hoje (COSSON, 2011, p.22).

 

Sob o estigma de serem portadores de uma linguagem rebuscada e de uma falsa ideia de que a repulsa dos jovens e adolescentes vem pelos clássicos é porque eles não atendem às questões humanas do nosso tempo. Concorda-se que a linguagem é realmente temporal, ou seja, muitos termos presentes nos textos literários afastam os leitores mais jovens, porque eles, simplesmente, não entendem boa parte do vocabulário ali presente, entretanto não se justifica negar o acesso aos clássicos universais e nacionais da Literatura, pois questões da ordem da condição humana são eternas: amor, desamor, paixão, morte, tristezas, aventuras, serenidade, inveja, entre outros.

Calvino chama a atenção, afirmando que os textos canônicos são importantes e o professor não deve bani-los por atravessarem barreiras do tempo e que ainda nos tem muito a dizer-nos.

Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: ‘estou lendo...’ e nunca Estou lendo...’ isso acontece pelo menos com aquelas pessoas que consideram grandes leitores; não vale para a juventude, idade em que o encontro com o mundo e com os clássicos como parte do mundo vale exatamente enquanto o primeiro encontro. O prefixo reiterativo antes do verbo ler pode ser uma pequena hipocrisia por parte dos que se envergonham de admitir não ter lido um livro famoso. Para tranquilizá-las, bastará observar que, por maiores que possam ser as leituras de formação de um indivíduo resta sempre um número enorme de obras que não leu (CALVINO, p.9, 2013).

Calvino (2013) enfatiza, ainda, a importância dos clássicos para os leitores como o encontro com mundo, pois eles são parte desse mundo. Afirma esse teórico que os clássicos são livros que constituem uma riqueza para os que leem que terminam despertando um gosto apaixonante por essas narrativas. Entretanto, para a juventude da era dos smartphones, elas não sedutoras e nem produtivas. A questão não está no texto clássico em si, mas na “impaciência, distração, inexperiência das instituições para o uso, inexperiência da vida” que é característica própria dessa modernidade fluida e apressada (CALVINO, 2013, p.10).

Ao ler ou reler o livro clássico na idade madura, reencontra-se o que já se tinha esquecido, reflete-se sobre aspectos nunca antes percebidos, pois a obra pode ser esquecida, mas deixa as suas impressões nos leitores. Talvez seja a hora da escola repensar os critérios da escolha dos títulos indicados aos adolescentes.

Riter (2009) afirma que a escola tem a obrigação de dispor de instrumentos para efetuar as opções, mas as escolhas que contam são aquelas que ocorrem além dos muros da escola, de forma utilitarista com vistas apenas ao concurso vestibular.

Os livros, como fatos, jamais falam por si mesmos. Quem os fazem falar são mecanismos de interpretação que usamos, e grande parte deles são aprendidos na escola. Depois a leitura literária que a escola objetiva processar visa mais que simplesmente ao entretenimento que a leitura de fruição proporcionam. No ambiente escolar, a literatura é um locus de conhecimento e, para que funcionasse como tal, convém ser explorada de maneira adequada (COSSON,2011, p.26-27).

Os livros como os fatos não falam por si, mas por meio das intepretações que lhes atribuímos, e na escola, a Literatura é esse espaço privilegiado de conhecimento, precisa, pois, ser explorada da maneira interessante e adequada. Insistem os PCNEM que a Literatura é uma manifestação artística que tem como matéria prima a palavra, portanto seu ensino consiste em explorar as potencialidades dessa palavra escrita. Reitera Cosson (2011):

A literatura nos diz o que somos e nos incentiva a desejar e a expressar o mundo por nós mesmos. E isso se dá porque a literatura é uma experiência a ser realizada é um conhecimento a ser reelaborada, ela é a incorporação do outro em nós sem renunciar a nossa própria identidade. No exercício da literatura podemos ser outros, podemos viver como outros, podemos romper os limites do tempo e do espaço de nossa experiência e, ainda assim, sermos nós mesmos, É por isso que interiorizamos com mais intensidade as verdades dadas pela poesia e pela ficção (COSSON,2011. p.17).

 

Ainda sobre o ensino da Literatura, Solé (2012) orienta que pode-se considerar a leitura literária como um dos meios mais importantes na escola para a apropriação de novas aprendizagens. Ratifica a autora que o perigo maior que envolve o ensino da Literatura não se encontra no fato dos professores não trabalharem com o texto em sala de aula, mas como esse texto está sendo trabalhado. Todorov afirma que:

O perigo que hoje ronda a Literatura não está, portanto, na escassez de bons poetas ou ficcionistas, no esgotamento da produção ou criação poética, mas na forma como a literatura tem sido oferecida aos jovens desde a escola primária até a faculdade: o perigo está no fato de que por uma estranha inversão, o estudante não entra em contato com a literatura mediante a leitura de textos literários propriamente ditos, mas com alguma forma de crítica, de teoria ou de história literária (TODOROV, 2009, p.10).

 

A reflexão feita por esse estudioso é pertinente, porque as práticas pedagógicas, em que trazemos ficções literárias como objeto de ensino, provocam muito mais aversão do que contribuição para a formação de leitores desse tipo de texto. Para muitos jovens do Ensino Médio, a Literatura passa a ser muito mais uma matéria escolar a ser aprendida em sua periodização do que um bem cultural que proporciona conhecimento sobre o mundo, os homens, as paixões, a fantasia, o deleite, enfim, sobre sua vida íntima e pública. É nesse sentido que Todorov reivindica que o texto literário volte a ocupar o centro e não a periferia do processo educacional em especial nos cursos de Literatura. Muitos estudantes afirmam que gostam de ler e reconhecem a importância da leitura e Literatura, no entanto, a prática docente que a escola realiza frente aos livros literários termina afastando-os dos livros. Portanto, na escola, fala-se muito sobre Literatura, em contrapartida, lê-se muito pouco os textos dessa natureza.

 

NOTA

1É mestranda em Ciências da Educação pela Facultad Interamericana de Ciencias Sociales (FICS). Pertence ao grupo de Pesquisa Geites da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e é professora da rede pública estadual de ensino.

 

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