Considerações Morais sobre o Elogio

Considerações Morais sobre o Elogio

CONSIDERAÇÕES MORAIS SOBRE O ELOGIO

 

  Katherine Stravogiannis

 

 

RESUMO: Este artigo de revisão bibliográfica pauta-se teoricamente na perspectiva sócio moral construtivista e objetiva oferecer subsídios teóricos que argumentem a favor de uma postura consciente de educadores no que diz respeito ao uso de elogios, socialmente compreendidos como benéficos à autoestima das crianças. Contudo, o estudo nos sugere que, embora necessários ao desenvolvimento, a forma valorativa como têm sido recorrentemente utilizados impactam negativamente no desenvolvimento moral das crianças e podem acarretar efeitos negativos por toda vida. Ao contrário, os elogios apreciativos ou construtivos, não julgam a personalidade e, sim, descrevem a ação e o sentimento desencadeado em quem os profere.

 

Palavras-Chave: Elogio. Valorativo. Construtivo. Autonomia. Moralidade.

 

ABSTRACT: This article presents a literature review guided by the perspective of socio-moral constructivist and aim to offer theorist subsidies that argue in favor of a stance of conscious educators with regard to the use of praise, socially understood as beneficial to the self-esteem of children. However, the study suggests that, while necessary to development, the evaluative form as they have been repeatedly used have a negative impact on the moral development of children and can result in negative effects throughout life. On the contrary, the praise for appreciative or constructive, they do not judge the personality but describe the action and the feeling triggered in those who speak.


Keywords: Praise. Evaluative. Constructive. Autonomy. Morality.

 

INTRODUÇÃO

 

Muitos educadores acreditam que o elogio é benéfico para o desenvolvimento das crianças. Torna-se usual nos deparamos com estudos e abordagens que argumentam a favor do elogio valorativo, conferindo-lhe um poder estimulante capaz de impactar positivamente a autoestima do indivíduo. Nesse estudo de revisão bibliográfica, pautamo-nos teoricamente na perspectiva sócio moral construtivista para oferecer subsídios que contra argumentem essas assertivas. De fato, as congratulações são necessárias para o desenvolvimento seguro dos pequenos. Contudo, poucos pais e educadores conscientizam-se de que a natureza do elogio pode trazer, ao contrário da intenção, frustração e outros prejuízos para a vida das crianças. Diferentemente, os elogios construtivos não acarretam em prejuízo, pois não julgam a personalidade e, sim, descrevem a ação e o sentimento desencadeado em quem os profere.

Conclui-se que é necessário favorecer contextos pedagógicos cooperativos que se voltem para a ruptura de velhas práticas, bem como instrumentalizar os educadores teórica e praticamente por meio da contribuição da teoria de perspectiva moral que vise à autonomia.

 

O ELOGIO NUMA VISÃO TRADICIONAL

 

Para muitos psicólogos e neurologistas, o reforço positivo funciona positivamente para educar, destacando-se quando comparado à punição, já que a dopamina, liberada pelo cérebro nos momentos de satisfação, atua como um elemento químico motivador na resposta comportamental.

Se voltássemos a estudos do começo do século dezenove e considerássemos a teoria do psicólogo norte-americano Thorndike, o elogio funcionaria como espécie de estímulo ou reforço positivo que pode ser utilizado para condicionar uma resposta operante, isto é, controlar o comportamento desejável da criança. Tendo, por outro lado, o filósofo russo Pavlov como referência, hoje, de certo modo, se ampliarmos a significação do seu termo “reforçamento”, tão amplamente utilizado, também chegaríamos à recompensa e punição do comportamento operante, podendo ser a recompensa representada pelo elogio.

Para Twentier (1998), as evidências de que o estado emocional afeta diretamente o sistema imunológico têm crescido consideravelmente, ocupando o elogio um papel fundamental nesse favorecimento, uma vez que há uma interligação entre corpo e mente cujo funcionamento é mutuamente influenciado. Para ele, elogiar seria ainda a maneira mais econômica e simplificada de elevar o moral, bem como favorecer a harmonia interpessoal no entorno social direto ao qual o sujeito pertence.

Se tomarmos ainda como base as falas da maioria de educadores, incluindo-se pais e professores, observaremos fortes indícios de uma perspectiva tradicional/ convencional no que se refere aos elogios. Para a maioria dos educadores, resumidamente, os elogios servem para estimular, agradar as crianças e incentivar bons comportamentos. Segundo Ginott (1975, p. 71):

 

A maioria dos adultos acredita que qualquer elogio é de grande auxílio para as crianças. Pais e professores acreditam nisto sem restrições. Supõe-se que o elogio promova a autoconfiança, aumente a segurança, estimule a iniciativa, motive a aprendizagem, crie a boa vontade e melhore as relações humanas. Se o elogio significa tudo isso, por que ainda temos tantas crianças inseguras, estudantes desestimulados, jovens sem motivação, (...)? Ao que parece, nem tudo se resolve com elogios, que, frequentemente, não produzem os resultados esperados.

 

Segundo Vinha (2000), a mensagem que se deseja transmitir usualmente é bastante diferente da recebida, devendo-se diferenciar as duas partes: as palavras do emissor e a dedução do receptor. O elogio valorativo leva a pessoa a sentir-se pressionada, querendo corresponder às expectativas dos outros. Isso ocorre, em parte, pois muitos adultos não conseguem distinguir os tipos saudáveis de elogio, transformando-o numa forma de avaliação que, logicamente, é desconfortável e insegura, muitas vezes até constrangedora.

A pessoa elogiada de forma valorativa (“Nossa, você é mesmo muito competente”), tende a justificar-se, sentindo-se na maioria das vezes indigna de tal congratulação, tendo a carga de corresponder a tal percepção alheia, muitas vezes temendo decair aos seus olhos. Por outro lado, quando a pessoa se habitua aos elogios (“Você está linda demais”), reforça-se a motivação externa e, consequentemente, o agir heterônomo, que é inversamente proporcional à capacidade de autogovernar-se, à medida que estes lhe causam dependência extrema, necessitando a pessoa elogiada do aval ou aprovação de terceiros para sentir-se valor.

Ainda segundo Vinha (2000) elogio valorativo pode caracterizar-se por chantagem emocional (“Assim você faz meu coração sorrir”), julgamento de características, personalidade ou até traços de caráter e pode ser considerado destrutivo, causando um agir interessado, além de gerar competição, comparações de resultados e rivalidade entre colegas (“Você é o melhor da sala”). Ele ainda implica em julgamento particular (“Você não fez o seu melhor”) que não oferece parâmetros claros e construtivos, não servindo para ajudar a pessoa avaliada. Por vezes, acarreta em insegurança, pois o desempenho em alguma proposta não pode ser avaliado pelo protagonista até que ele receba o feedback elogioso e valorativo, podendo-se crer mais na visão alheia no que na sua própria perspectiva.

 

IMPLICAÇÕES DO ELOGIO

 

Segundo a psicóloga americana Carol Dweck (2007), quando estabelecemos um padrão fixo de referência, assentindo por exemplo que a criança é inteligente ou boa em determinada tarefa, ela se preocupa em resguardar a manutenção deste padrão (“Você vai ser um grande escritor um dia” – alternativa construtiva: “seu texto me inspirou várias ideias”), preferindo não se arriscar em situações desconhecidas, em que eventualmente poderá não corresponder.

Resumindo estudo realizado na Universidade de Columbia por Dweck (apud Tarrio, 2010) de como as pessoas são afetadas pelo que é dito sobre suas capacidades, com crianças de sexto ano que fizeram alguns testes compatíveis a sua idade, que foram elogiadas por seu esforço ("Você deve ter trabalhado muito nisso!"), 90 % decidiu fazer testes com maior nível de dificuldade. Já a maioria das crianças elogiadas por sua capacidade ou inteligência ("Você é muito bom nisso!") preferiu não se arriscar e ficar no mesmo nível. Este resultado nos sugere que a verdadeira eficácia do elogio está centrada em sua especificidade ou, ainda, no esclarecimento a quem o recebe sobre os aspectos de sua ação que de fato se destacaram.

Segundo Adán (2010), outro problema recorrente quando acumulamos elogios demais é a não inserção destes em nosso centro de recompensas, já que o cérebro entende que nem é mais necessário enviar o estímulo ou a mensagem de incentivo, retardando o centro de recompensas, acarretando em falta de motivação para fazer as tarefas ou perseverar rumo a novos desafios profissionais e pessoais.

De fato, quando elogiada de forma recorrente e valorativa, a pessoa pode inclusive temer enfrentar oportunidades e arriscar-se. Basta tomarmos por base tantos jovens que muitas vezes não se arriscam a processos seletivos mais concorridos temendo decepcionar e não corresponder às expectativas (“Você é muito inteligente, vai passar com certeza”).

O psicólogo Haim Ginott (1974;1989, apud VINHA, 2000) defende que o professor deve continuamente atentar-se para não subestimar o inegável poder que suas palavras têm, uma vez que trabalhar com humanos, demanda, entre outras habilidades, o estudo sobre a linguagem mais adequada a ser utilizada nas relações interpessoais. Sendo assim, compete a nós, educadores, aprofundar os conhecimentos sobre o tema.  Para Ginott (1969-1975), o princípio norteador de uma efetiva e, portanto, construtiva comunicação é saber focar os enunciados nos fatos e situações, e não em pessoas, não emitindo julgamentos pessoais, mas descrevendo a ação de forma a se legitimar o seu autor.

Já para a crianças, o elogio valorativo é igualmente desastroso. Quando, por exemplo, a criança pensa que não faz jus a determinado elogio, ela tende a sentir-se culpada, podendo reagir de formas adversas. Outras vezes, quando por exemplo ela faz rabiscos quaisquer e obtém elogios (“Que lindo!”) ela pode mesmo crer que é totalmente capaz de enganar o adulto, duvidando de sua sinceridade ou inteligência. Segundo Thiede (s/d apud Vinha, 2000), o elogio que avalia a capacidade ou desempenho do outro pode ser compreendido como arrogante, pois quem avalia se coloca numa condição de superioridade, de juiz, e não colabora em uma relação de respeito mútuo. Nesse caso, para Ginott (1975, p. 72), “o elogio é uma avaliação e a avaliação é desconfortável. O avaliador julga e os julgados ficam apreensivos. ”.

 

O ELOGIO E A ATMOSFERA SÓCIO-MORAL CONSTRUTIVISTA

 

Segundo Vinha (2000) os elogios podem se distinguir em valorativos e apreciativos ou construtivos (Faber & Mazlish; Ginott; Gordon; Mantovani de Assis). O educador, em sua prática cotidiana, visando a promover autonomia moral e intelectual e um ambiente cooperativo, deve empregar os elogios apreciativos como maneira de favorecer o desenvolvimento da personalidade moral de suas crianças.

De acordo com a perspectiva construtivista, cabe ao educador auxiliar as crianças a acreditarem em si, sem depender do julgamento externo, podendo emitir juízos próprios sobre o que faz, podendo auto avaliar-se de forma saudável e segura, ainda que os outros lhe critiquem, à medida que deixam a heteronômica rumo à autonomia, convivendo em ambiente de atmosfera cooperativa.

Deseja-se, pois, que as crianças ajam pela motivação intrínseca, autoconfiantes, curiosas e lançando-se em novos desafios, sem temer a reprovação e valorizando atitudes de respeito mútuo. É importante, pois, que o professor se atente e exercite recorrentemente o uso do elogio apreciativo, sendo que este em geral não nos é natural. Estamos habituados com “parabéns”, carinhas felizes e outras felicitações valorativas. Diante de um feedback, o professor deve descrever aquilo que observa e não emitir opiniões pessoais.

A teoria de Piaget (1932/1977) nos encoraja a pensar sobre os relacionamentos adulto-criança, sendo que ele descreveu dois tipos de moralidade correspondentes a esse tipo de relacionamento: o da obediência, ou moralidade heterônoma, e a moralidade autônoma. Para a moralidade heterônoma, o indivíduo segue regras morais estabelecidas por outros, por obediência a uma autoridade que tem poder coercivo, a fim de obter vantagens pessoais. Nesse sentido, o elogio valorativo reforçaria este tipo e moralidade. Já o segundo tipo, a moralidade autônoma, em que o indivíduo segue princípios autorreguladores, as regras têm um sentido de necessidade, favorecendo a autonomia.

Nesse sentido, os elogios construtivos, favorecem esta moralidade autônoma, já que se desenvolve um ambiente cooperativo, sem regulação baseada em motivação externa ou poder autoritário. As crianças são encorajadas a agir criticamente, sem temer a avaliação ou juízo do adulto, mas, a contrário, legitimando regras de respeito mútuo, que se pautam em análise de ações, não de caráter. Segundo Ginott (1975, p. 71), “elogio não é bajulação. A bajulação é insincera e conveniente. ”.

Sabemos que quando uma criança obedece um adulto ou comporta-se bem somente para agradá-lo, ela não está construindo suas razões morais para fazê-lo. Desta forma, o elogio de apreço (construtivo) é considerado produtivo, já que apresenta de forma realista o resultado aparente (“Vejo que você se esforçou ao utilizar tantas cores e preencher todo papel” e não “Você vai ser um desenhista”), bem como as intensões e impressões que causou ao interlocutor (“Seu desenho me fez lembrar de um lugar tranquilo”), fazendo com que a criança tire suas próprias conclusões sobre seu resultado (“Eu não conseguiria arrumar a sala inteira sem sua ajuda. Obrigada” – criança pode pensar o quanto seu esforço foi efetivo e reconhecido), ao contrário de “você é um ótimo menino”, que não corresponde à realidade.

Ainda segundo Vinha, o elogio construtivo está diretamente relacionado ao esforço e os resultados alcançados (“Você cumpriu nosso combinado”/ “A sobremesa está muito saborosa”), jamais a traços de caráter (“Você é confiável”/ “Você é uma excelente cozinheira”), personalidade ou aparência, devendo as palavras ser sugestivas e interpretativas. Aprecia-se, ao contrário, atos específicos e suas consequências, de forma realista e apreciativa, de forma que a criança perceba seu feito e seus avanços. Para Ginott (1975, p. 76):

 

É mais provável que o reconhecimento descritivo (ao contrário do elogio valorativo) conduza a um autoconceito realístico. O elogio tem duas partes: nossas palavras e as conclusões (...). Na realidade, elogio é o que ele diz para si mesmo, depois de nós termos falado. Nossas palavras deveriam descrever claramente o que gostamos e apreciamos no seu trabalho.

 

Ainda é muito comum, nas escolas, que vejamos e escutemos os elogios em relação aos desenhos infantis, sendo que o respeito pela produção da criança deve ser o mesmo que temos pelo trabalho de um artista (“Conte-me a história do seu desenho” ou “Esta menina está parecendo bem alegre, será que foi assim que você se sentiu ao desenhar?”). A criança necessita de cortesia e, por isso, é preferível que o professor gentilmente não pergunte o que a criança desenhou. Se não souber o que ela fez, é possível perguntar de modo respeitoso, como: “Fale-me sobre o que estava pensando enquanto desenhava”, “Diga-me o que você desenhou primeiro” e então prossiga valorizando as informações que a criança lhe trouxer e não demonstrando que não o compreendeu.

Muitas vezes, contudo, o adulto sabe que a criança fez de forma não intencional, não correspondendo às suas características, não sendo honesto ele reagir e forma neutra. Contudo, julgar também não é positivo, pois desconhecemos os motivos pelos quais a criança chegou a tal resultado, bem como seus sentimentos. Alguns exemplos de alternativa seriam: “O seu desenho ficou como você desejava/ esperava?”, “Você acha que não foi possível fazer outros desenhos?”; “O resultado deste desenho ficou diferente dos que você costuma fazer. Por que será?”.

 

CONCLUSÃO

 

O elogio valorativo implica em resultados desastrosos, visto que muitas vezes a intenção de motivar acaba por obter resultados contrários aos pretendidos, uma vez que ele pode levar a pessoa a sentir-se pressionada, querendo corresponder às expectativas dos outros, transformando-o numa forma de avaliação desconfortável.

Para Piaget (1948/1973), ao promovermos o desenvolvimento pleno de nossas crianças, não devemos oferecer um ambiente coercitivo, mas, ao contrário, lhes oferecer bases para um desenvolvimento autônomo num ambiente cooperativo. Isso é possível quando há espaço para interações, explorações e confiança para aprender e ampliar as relações sociais numa atmosfera estimulante, que valorize o contexto coletivo e individual. Para isso, a motivação deve ser sempre intrínseca, ou seja, partir de um desejo interno, já que se o objetivo a que visa é desafiador, sente-se naturalmente motivada a agir e crescer. Nesse sentido, os elogios apreciativos ou construtivos são realistas, descritivos e adquirem grande relevância, já que atuam em favor da autoestima favorável e construção da autonomia moral.

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

DWECK, Carol S. MindSet: The New Psychology of Success. Greenwood, 2007

GIL, Marisa Adán. O problema do Elogio. São Paulo: Ed. Abril. Revista Superinteressante Abril, 2010. Nº 271

GINOTT, Haim G. (1969). Pais e filhos: novas soluções para velhos problemas; trad. Lucia S. Sweet. Rio de Janeiro: Bloch, 1975

TWENTIER, Jerry D. O Poder do Elogio. Rio de Janeiro: Ed. Record, 1998

KELLER. Fred S. Aprendizagem: teoria do reforço. São Paulo Ed. Pedagógica e Universitária Ltda., 1973 (2ª. ed)

PIAGET, Jean. (1948). Para onde vai a educação? Rio de Janeiro: José Olympio, 1973.

______. (1932). O julgamento moral da criança. Tradução de Elzon Lenardon. São Paulo: Ed. Mestre Jou, 1977. (ed. Orig. 1932 de Paris: Alcan).

TARRIO, Carolina. Como educar seu filho? Educar para crescer. Ed. Abril, 2010. Disponível em:

 <http://educarparacrescer.abril.com.br/comportamento/elogio-754577.shtml>.   Acesso em: 15 julho 2016        

VINHA, Telma P. O educador e a moralidade infantil: uma visão construtivista. Campinas: Mercado de Letras, 2000.

 


Coordenadora pedagógica, formadora, atua na Educação Infantil há mais de 15 anos, licenciada em Letras alemão e português pela USP, pedagoga e psicopedagoga, especialista em Educação Infantil, em relações interpessoais e autonomia moral na escola e mestranda em Ciências da Educação. Site: www.pedagogiaeinfancia.com.br  kathes@me.com; kstravogiannis@yahoo.com.br